• Laura Costa

A face do Fascismo

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Anna Viana (mestranda em História/UFMG), Bárbara Deoti (granduanda em História/UFMG) e Maria Visconti (doutoranda em História/UFMG)


O termo “fascismo” têm sido recorrentemente utilizado nos dias atuais: o vemos em jornais, na política, na rua, na internet, e não é incomum ouvi-lo como ofensa. Mas, apesar de estar aparecendo cada vez mais no cenário nacional e internacional, o que esse termo quer dizer? Ao que ele remete? Tentaremos, neste breve texto, pontuar algumas questões relativas ao conceito de “fascismo” que são importantes para uma melhor compreensão do termo.


De acordo com Rubens Casara, a palavra se origina do termo fascio, do latim facis, e se refere ao símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que usavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços para que passassem. Esses feixes, em sua origem, eram instrumentos a serviço da autoridade e, por isso, passaram a ser usados como símbolos do poder do Estado. Não é por acaso que o termo foi mobilizado por Mussolini durante o regime fascista italiano, também chamado de fascismo clássico. Ele foi recuperada justamente para simbolizar a força em torno do Estado.


Atualmente, como coloca Casara, os estudos apontam para o entendimento do fascismo como, não apenas algumas experiências históricas específicas, mas também como uma combinação de significantes: teorias, valores, princípios, estratégias, práticas, costumes, enfim, uma série de elementos que estão à disposição de governantes ou lideranças de tipos diversos. O fascismo nega a diversidade e o conhecimento, lançando mão da força para alcançar os resultados que desejam. A desconfiança dos fascistas com relação ao conhecimento está no afronte às suas próprias crenças e no temor de que elas possam ser colocadas em cheque. A maior dificuldade é confrontar o fascista com aquilo que é insuportável para ele: o outro.


Edda Saccomani desenvolve o conceito de fascismo na obra “Dicionário de política” e mostra que o fascismo como conceito possui pelo menos três significados principais: o fascismo italiano, o fascismo alemão e o "fascismo histórico", que seria quando o conceito é utilizado como "um certo núcleo de características ideológicas e/ou critérios de organização e/ou finalidades políticas", ou seja, como um "tipo ideal", retomando Max Weber. Tal definição vai de encontro ao que aponta Casara, como colocado anteriormente. Assim, ela delimita que existem dois tipos de teoria para se pensar o fascismo: as teorias singularizantes e as teorias generalizantes.


As teorias singularizantes são teorias que "para explicar a origem e sucesso dos movimentos e dos regimes fascistas, recorrem a fatores estreitamente ligados às particularidades de uma determinada realidade nacional e rejeitam toda a tentativa de generalização de um contexto histórico específico a outro”. Desse modo, o termo é ligado a eventos históricos específicos que ocorreram após a Primeira Guerra Mundial, como a ascensão de Mussolini e, posteriormente, Hitler, ou a outros eventos que compartilham características com o regime instaurado na Itália. Dentro dessa perspectiva, não se pode pensar em "fascismo histórico".


Já as teorias generalizantes são teorias que "que consideram o Fascismo como um fenômeno supranacional que apresentou, nas diversas formas de que históricamente se revestiu, características essencialmente análogas, resumíveis num conjunto de fatores homogêneos". Na perspectiva generalizante, podemos pensar tanto no fascismo italiano e nazista quanto no "fascismo histórico". Nesse sentido, vale retomar o texto de Umberto Eco, “O fascismo eterno”, no qual o historiador discorre sobre as várias faces que o fascismo pode assumir, mas que são interligadas por uma série de características, como o culto à tradição, o irracionalismo, o racismo, o nacionalismo, a construção de um inimigo, a violência, o machismo, entre outras. De acordo com ele, o fascismo pode se apresentar nas mais diversas vestes, e é justamente por isso que devemos estar atentos: ele não acontecerá nos mesmos formatos históricos novamente, o que implica em um exercício constante de desmascará-lo.


Por fim, cabe uma advertência apresentada por Theodore Adorno, nos seus “Estudos sobre a personalidade autoritária”: “o sujeito potencialmente fascista e mais etnocêntrico* está longe de ser raro”. Existe uma cultura e uma tradição autoritária que coloca cada um de nós na posição de um fascista potencial. Portanto, além da vigilância aos possíveis fascistas que venham a surgir ao nosso lado, ela deve ser constante, também, para nós mesmos, para que não sejamos mobilizados pelos discursos e apelos fascistas que nos cercam.


*O etnocentrismo pode ser compreendido como a tendência de analisar outras culturas e povos a partir da cultura do observador, podendo implicar na concepção de superioridade do grupo ou etnia a qual ele pertence.




Coordenação do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Autoritarismo e Totalitarismo da UFMG (NEPAT/UFMG)


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