• Laura Costa

Ainda somos humanos?


Foto: Yogi Atmo/reprodução


Mariana Prates


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Nós temos lido muitas notícias ruins ultimamente, e isso (como era de se esperar) me parece péssimo.


Não me entenda mal. Em tempos difíceis, como o que estamos vivendo, é óbvio que vamos ser bombardeados a todo momento com estatísticas complicadas, notícias pessimistas e cenários desoladores. O momento pede isso, não pede? Seria extremamente cruel e irresponsável ignorar todas essas bandeiras vermelhas e se isolar em um mundo irreal de fantasia onde tudo continua perfeitamente bem, como se não houvesse tantas pessoas lá fora sofrendo e batalhando para tornar isso tudo melhor.


E a gente precisa reconhecer isso. O mundo passa por uma crise pandêmica que causa danos sem medida, dentre eles o mais importante e irrecuperável dano à vida — quantas pessoas já morreram desde que tudo isso começou? Só aqui no Brasil, no momento em que eu escrevo, foram aproximadamente novecentas e cinquenta. Pode ser que enquanto você estiver lendo, esse número tenha passado dos mil. Não consigo imaginar pelo que os parentes dessas vítimas estão passando agora.


O meu problema com as notícias ruins é que elas se tornam tão comuns, que acabam tornando algumas pessoas apáticas. Igual àquelas que se prendem no mundo da fantasia. E olha que eu digo isso como jornalista, hein. Pensa comigo: em uma crise como essa, que já faz a gente se sentir um pouco impotente, é muito fácil cruzar os braços e esperar o pior acontecer. Porque ele já está acontecendo! É só ligar em todo e qualquer jornal para perceber.


Pode ser que minha teoria não lhe faça muito sentido, mas eu sempre pensei que ninguém faz nada para mudar o que está ruim, se não acreditar que essa coisa tem potencial para melhorar. Não estou te dizendo para criar agora uma vacina pro Covid-19 (mas fique à vontade para criar, me faria muito feliz). Também não estou te pedindo para acordar amanhã cedinho pronto para salvar Deus e o mundo — dependendo do cenário, já somos heróis o suficiente por salvar a nós mesmos. Mas saiba que, em meio a toda a ansiedade e incerteza, existem notícias que ainda nos fazem ter um mínimo de esperança.


Semana passada me deparei com o relato de um casal que colocou um anúncio na porta dos vizinhos idosos, dizendo que estavam à disposição para fazer compras ou buscar encomendas para eles, se precisassem. Talvez não seja um grande esforço para o casal fazer algumas compras a mais neste período. Mas para os vizinhos, parte de um dos principais grupos de risco da doença, talvez signifique absolutamente tudo.


Nas redes sociais, também percebo muitas mobilizações para angariar donativos, vaquinhas e cestas básicas para famílias em situação de risco. Com escolas e creches paradas, uma grande preocupação são aquelas crianças que precisavam da escola para fazer suas refeições. Para as famílias dessas crianças, a quarentena não é apenas um período de ócio, tédio e home-office, como temos visto em stories do Instagram, mas de completa incerteza e desespero. Até quando terão o que comer?


Não são as mobilizações nas redes sociais que vão permitir a essas famílias um conforto mais digno. Neste tópico, a discussão é bem maior do que minhas palavras vão poder comportar — precisamos de professores, políticos, ativistas, sociólogos; enfim. Precisamos construir e desconstruir um bocado de paradigmas do sistema que mantêm a desigualdade em nosso país. Mas se eu posso continuar apenas desfrutando do meu próprio conforto, ou usar do meu conforto para tentar permitir a quem precisa uma vivência um pouco mais digna, qual das opções lhe parece mais humana?


A maioria de nós não vai criar vacinas, doar milhões de reais para o SUS, salvar milhares de vidas ou fazer alguma coisa estrondosamente enorme que vai mudar o curso do Coronavirus no Brasil. E com certeza que ninguém vai, sozinho, construir ou desconstruir paradigma nenhum que resolverá todos os problemas da humanidade. Mas isso não significa que tenhamos de nos perder em meio à tragédia e admitir que é só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte. Continuar todos os dias com a mesma rotina indiferente de férias forçadas, já que não há nada que possamos fazer para ajudar.


Porque os pequenos gestos, apesar de serem como o nome diz — pequenos —, também contam. Pense nos seus vizinhos, nas pessoas que trabalham com você, na galera da sua rua. Na galera que você não conhece, mas pode ser que precise de alguma ajuda. Será que não tem nada, nada mesmo, que você possa fazer? Eu acho que tem, hein. Tem vezes que pra gente achar, basta procurar.


Em tempos difíceis, o melhor que podemos fazer é tentar sair deles mais fortes, mais sensíveis. Se não é uma pandemia que vai nos fazer perceber que ainda somos humanos, sinceramente, não sei mais o que haveria de ser.


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