• Laura Costa

Beagá em perspectiva: como estamos nos saindo em meio a pandemia?

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Já falamos em outras oportunidades aqui no blog sobre como os estados brasileiros têm sido protagonistas no combate ao coronavírus. Isto é, na ausência de um governo federal efetivo, cada estado tem tomado a iniciativa de fazer aquilo que tem que ser feito na atual crise. No entanto, desde o início, tenho me preocupado com o governo de Minas Gerais, representado pelo governador Romeu Zema (Novo). O seu discurso, construído para não desagradar demais o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), coloca um sinal de alerta em todo mundo que se preocupa com uma boa gestão da crise do coronavírus em nosso estado.


Atitudes como a de dizer, no início deste mês, que irá estudar sobre a flexibilização do isolamento social no estado após reunião com o presidente (APÓS..., 2020), é algo que me faz perguntar: até que ponto ele pode se alinhar à política negacionista do governo de Bolsonaro? Segundo os dados e estudos sobre a curva que estamos vivenciando, ainda não é o momento de falar sobre flexibilização no isolamento. Também, Zema parece tender a adotar um posicionamento muito reativo e menos preventivo em relação ao coronavírus quando incentiva as cidades do interior a voltarem à normalidade, principalmente aquelas que não tiveram casos do COVID-19 (CORONAVÍRUS..., 2020).


A meu ver, ele já deveria ter entendido que tomadas de decisões muito reativas, ou seja, esperar a disseminação do vírus para tomar as medidas, dão brechas para que a doença se alastre com muita velocidade. A própria experiência positiva de Minas Gerais mostra isso, como um estado que adotou o isolamento cedo e não esperou piorar. Isto é, esse posicionamento dele é, no mínimo, contraditório. Por fim, o fato de não ter assinado a carta dos governadores neste domingo, em repúdio às últimas atitudes de Jair Bolsonaro e em defesa da democracia, coloca em dúvida o que o governador Romeu Zema realmente defende.


Por outro lado, Alexandre Kalil (PSD), nosso prefeito aqui em BH, me parece ter demonstrado um posicionamento mais coeso e que passa realmente para quem vê que ele está, de fato, preocupado com a população e com como ela passará por esta crise. Situações em que ele reconhece que ainda estamos no início da “guerra” demonstram seriedade e consciência sobre a gravidade da crise e suas múltiplas faces. Para além disso, algumas medidas sociais corroboram com seu posicionamento, como é o caso das doações de cestas básicas e de kits de higiene (LIMA; MARQUES; MURATORI, 2020).


Os dados não mentem: Belo Horizonte têm se destacado no combate ao COVID-19. Se comparado com outras cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, a capital mineira apresenta números e dados animadores. Sem querer fazer um diagnóstico definitivo, o fato de Belo Horizonte ter adotado o isolamento logo quando surgiu os primeiros casos na cidade podem explicar o seu sucesso no combate ao coronavírus, ao contrário das outras duas cidades, que, apesar de ter adotado o isolamento mais ou menos na mesma data de BH, já estavam em um estágio mais avançado de proliferação do COVID-19.


Para além disso, Belo Horizonte parece ter condições melhores de lidar com a pandemia. Pensando na capacidade da infraestrutura hospitalar de nossa cidade, ela é quantitativamente maior para atender a população, se comparado com as capitais carioca e paulista, como mostra a tabela abaixo:


Tabela 1: Número e Taxa de leitos

Fonte: BRASIL, 2019; BRASIL, 2020


Os dados são de fevereiro deste ano. Por isso, devemos considerar que estes não são números finais e que mais leitos foram construídos especificamente para enfrentar a crise e aliviar a demanda pelos leitos já existentes, em todas as três capitais. Também, vale lembrar que a população ainda terá as mesmas doenças que já tinham antes. Isto é, os leitos não estão 100% à disposição somente para os casos de coronavírus. Ainda assim, a quantidade de leitos por habitante já possuída antes mesmo da crise é algo que joga a favor de BH.


Todos os fatores mencionados acima refletem nos dados referentes à contaminação nestas três capitais. O isolamento social iniciado em Belo Horizonte tem possibilitado que o ritmo de casos novos de coronavírus seja três vezes menor do que nas capitais carioca e paulista (PARREIRAS, 2020), gerando efeitos nas curvas de contaminação de cada cidade, onde Belo Horizonte possui um achatamento considerável até o momento, como mostram os gráficos abaixo:


Imagem 1: Curva de contaminação Rio de Janeiro

Fonte: MENEGAT (2020)


Imagem 2: Curva de contaminação Belo Horizonte

Fonte: MENEGAT (2020)


Imagem 3: Curva de contaminação São Paulo

Fonte: MENEGAT (2020)


O tamanho de cada cidade não pode ser ignorado. São Paulo e Rio de Janeiro são cidades maiores do que Belo Horizonte. No entanto, independentemente da quantidade numérica, a inclinação das curvas é o que reflete a ausência de um pico tão expressivo de contaminação em nossa cidade, em comparação com as outras duas capitais. Ainda assim, os dados numéricos são expressivos e ajudam a comprovar o que tenho mostrado aqui:


Tabela 2: Número e taxa de mortalidade

Fonte: SÃO PAULO, 2020; RIO DE JANEIRO; 2020; MINAS GERAIS; 2020


Os dados apontam que Belo Horizonte tem tido resultados positivos no combate ao coronavírus, e a comparação com as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro escancaram isto. No entanto, isto não significa que não há desafios. Como Kalil mesmo disse, estamos somente no início. Também, vários problemas me vêm à cabeça. Um deles são as favelas de nossa cidade... Como proteger essas populações? Como falar em isolamento social em casas em que seis pessoas dividem dois cômodos? Como falar em medidas preventivas em favelas como a da Serra que possui 50.000 habitantes? E o que fazer com o alto grau de vulnerabilidade econômica destes locais? Como chegar em locais em que o Estado não chega?


Referências


APÓS reunião com Bolsonaro, Zema diz estudar protocolo para suspender isolamento. Correio Braziliense. Brasília, 2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/09/interna_politica,843433/apos-reuniao-bolsonaro-zema-estuda-protocolo-para-suspender-isolamento.shtml. Acesso em: 21 abr, 2020.


CORONAVÍRUS: Zema estudo flexibilização de decreto, mas não prevê data para isso. O Tempo. Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://www.otempo.com.br/politica/coronavirus-zema-estuda-flexibilizacao-de-decreto-mas-nao-preve-data-para-isso-1.2321309. Acesso em: 21 abr, 2020.


LIMA, Déborah; MARQUES, João Vitor; MURATORI, Matheus. Alexandre Kalil: “A guerra começou e nós nos preparamos”. Estado de Minas. Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/04/20/interna_gerais,1140365/alexandre-kalil-a-guerra-comecou-e-nos-nos-preparamos.shtml


MENEGAT, Rodrigo. Veja a evolução do coronavírus por cidades e microrregiões do Brasil. Estado de São Paulo. São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.estadao.com.br/infograficos/saude,veja-a-evolucao-do-coronavirus-por-cidades-e-microrregioes-do-brasil,1089150. Acesso em: 21 abr, 2020.


PARREIRAS, Mateus. Isolamento faz coronavírus em BH 3 vezes mais lento do que no Rio e em SP. Estado de Minas. Belo Horizonte, 2020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/04/21/interna_gerais,1140533/isolamento-faz-coronavirus-em-bh-3-vezes-mais-lento-do-que-no-rio-e-em.shtml. Acesso em: 21 abr, 2020.


BRASIL. DataSUS-CNES. Recursos físicos. [S.i.]: DataSUS-CNES, 2020. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0204&id=11665&VObj=http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?cnes/cnv/leiint Acesso em: 21 abr, 2020


BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). [S.i.]: IBGE, 2019. Disponível em:

https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/es/vitoria.html Acesso em: 21 abr, 2020.


SÃO PAULO (Município). Prefeitura de São Paulo. São Paulo: Prefeitura de São Paulo, 2020. Disponível em:

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/vigilancia_em_saude/doencas_e_agravos/coronavirus/index.php?p=291766. Acesso em: 21 abr, 2020.


MINAS GERAIS. Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais. Minas Gerais: Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, 2020. Disponível em: https://www.saude.mg.gov.br/cidadao/banco-de-noticias/story/12528-informe-epidemiologico-20-04. Acesso em: 21 abr, 2020.


RIO DE JANEIRO (Estado). Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado do Rio de Janeiro. Disponível em:

https://coronavirus.rj.gov.br/boletim/boletim-coronavirus-20-04-422-obitos-e-4-899-casos-confirmados-no-rj/. Acesso em: 21 abr, 2020.


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