• Laura Costa

Como explorar as potencialidades econômicas de Beagá no enfrentamento da crise?

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Eu sei, mas não devia


"A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.

E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.

E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,

aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se

da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,

de tanto acostumar, se perde de si mesma."


Decidi começar esse texto com um trecho desse poema, já antigo mas que nos últimos dias

tem se tornado tão presente e real pra mim. Nos últimos dias tenho me lembrado muito dele e de como Marina Colasanti sintetiza bem o sentimento de se acostumar. Mas precisamos, diariamente, tentar sair do naufrágio que é se acostumar para nos unirmos como sociedade para pensar em saídas propositivas disso.


Venho falado muito sobre perspectivas pro nosso “novo normal”. O que nos espera? Como nos preparar para diversos cenários possíveis? Como preparar as cidades brasileiras para que elas possam estar mais preparadas pra todo esse novo cenário? Precisamos começar a pensar nas forças e vulnerabilidades de Beagá, por exemplo, para que possamos enfrentar isso tudo de maneira mais coletiva e coordenada.


Eu sei que estamos no meio de uma pandemia, que nosso foco talvez esteja voltado à outras preocupações, mas não podemos deixar de querer uma cidade melhor, especialmente depois que tudo isso passar. Principalmente porque, após essa crise, precisamos pensar novas propostas e estratégias para desenvolver ainda mais a cidade, tendo em vista essa recessão que estamos vivendo e a necessidade de planos de ação eficientes, por meio da nossa voz.


Quando trabalhei no Sebrae, aprendi sobre abordagens e estratégias para melhorar o desenvolvimento econômico local e essa é uma temática que tenho muito interesse, principalmente para pensar o ecossistema vasto de atores que podem fortalecer essas ações. Essa temática envolve estudos sobre as vocações e potencialidades dos municípios.


Quais são as atividades econômicas atuais mais importantes de Belo Horizonte? Qual é a vocação e força econômica da nossa cidade? Nesse texto, pretendo dividir essa abordagem em um primeiro momento olhando pro local e, depois, para o internacional.


Belo Horizonte tem um PIB de aproximadamente 88 bilhões e 52% desse PIB está concentrado no setor de serviços. Quando pensamos na pauta de exportação, o café é nossa principal força com um PIB de aproximadamente 170 milhões em exportação. Em relação aos serviços, BH carrega o título de “capital dos bares”, pela quantidade de estabelecimentos e tradições. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, ABRASEL, existem cerca de 12 mil bares e restaurantes em BH. Esse setor representa mais de 40% do PIB do turismo da capital mineira e emprega 50% dos funcionários deste segmento (AGÊNCIA MINAS GERAIS, 2018).


Estudos, como o da Mckinsey, sobre as novas tendências de consumo com a pandemia apontam que as pessoas estão mais aptas a consumirem mais marcas, produtos, ideias e empreendimentos locais. Precisamos fazer com que essa tendência se torne uma realidade e, para isso, precisamos fomentar a construção de campanhas de conscientização para priorização do consumo local, demonstrando a importância disso para fortalecimento da economia local e a qualidade desses serviços e produtos que são, tantas vezes, subestimadas. Sempre falo sobre a necessidade de um ecossistema capaz de impulsionar mudanças. A atuação do setor público é, claro, prioritária nesse processo. Mas precisamos contar com ações do coletivo também, dos cidadãos, da comunidade acadêmica, de redes de apoio e tantos outros atores importantes. Tenho acompanhado a criação de projetos de apoio à pequenos negócios nesse momento de pandemia com auxílios através de mentorias coletivas e planejamento de ações para sustentar esses negócios. O Virtualiza é um desses projetos, de uma grande amiga, que busca apoiar pequenos empresários na digitalização de seus negócios nesse momento de crise.


Outra importante vocação do município que ganhou força, principalmente nos últimos anos, é a forte atuação e presença de startups que criam essa ambiência ligada à inovação. Belo Horizonte é reconhecida nacional e internacionalmente como um dos principais polos de startups do país, ficando conhecida como “capital da inovação”. O San Pedro Valley é um retrato desse cenário, representando uma comunidade com mais de 300 startups mineiras. Além das startups, a comunidade também conta com incubadoras e aceleradoras de negócios que são pilares importantes para pivotar melhorias para os pequenos negócios belorizontinos para que eles sobrevivam a todo esse temporal.


Ao falar de vocação dos municípios, precisamos pensá-las a nível local e, também, internacional. Muito mais do que simplesmente um negócio passar a comprar ou vender produtos no exterior, precisamos pensar no ecossistema local capaz de apoiar a perenidade dessas trocas internacionais, partindo do próprio governo local, através de uma série de ações pensadas de maneira conjunta. O projeto Internacionaliza BH, realizado pela AcMinas, é um exemplo de ação nesse sentido.


Pensar em trocas internacionais exige, ainda, pensar na justiça dessas trocas e nos seus benefícios, em nível local. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, CEPAL, ao longo de seus estudos apontou preocupações nesse sentido, sobre o risco de uma possível deterioração entre os termos de troca internacionais, pensando na necessidade dessas trocas serem mais justas entre si.


Por isso, no que diz respeito à economia internacional, também precisamos estar atentos às nossas forças e vocações, para que elas sejam exercidas de maneira a posicionar o país e suas potencialidades locais como lideranças em suas particularidades.


Dentre as várias importantes pautas ligadas ao fortalecimento da integração regional, existe essa defesa das potencialidades locais como propulsoras de um desenvolvimento mais sustentável. Precisamos aumentar o nível de integração entre cidades latino-americanas para que, através de acordos de cooperação, elas possam pensar em formas de desenvolvimento mais adequadas com suas realidades locais.


O Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, fez um relatório sobre a situação da América Latina frente à pandemia e as vulnerabilidades da região nesse contexto. A América Latina é uma região que me preocupa muito nessa crise pela dependência econômica em relação à China, por exemplo, que é um dos principais parceiros comerciais de vários países latinos. Será que com todo esse cenário vamos caminhar para uma priorização da agenda de integração regional como viabilizadora de uma retomada econômica?


Quero terminar aqui trazendo um conceito que gosto muito: cidades resilientes. Esse foi um termo criado em 2010, pelas Nações Unidas. Uma cidade resiliente é, em linhas gerais, aquela que tem capacidade de resistir, absorver e se recuperar de forma eficiente dos efeitos de um desastre, poupando mais vidas e garantindo mais direitos. Em sua campanha por cidades resilientes, a ONU aponta uma série de medidas para cumprimento desses requisitos, um deles é a importância da participação social nesse processo (poderia citar os demais requisitos, mas é assunto pra outro texto).


Que possamos, enquanto cidadãos belorizontinos, cuidar do futuro da nossa cidade, apoiar negócios locais e acreditar nas potencialidades da nossa Beagá como uma cidade mais resiliente para nós mesmos.


Referências


O Panorama Econômico de Minas Gerais e da RMBH. Agência Minas Gerais (Minas Guide), 2018. Disponível em: https://minasguide.com/blog/panorama-economico-minas-rmbh/. Acesso em: 14 mai. 2020.


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