• Laura Costa

Como o Brasil e a economia internacional está reagindo diante dessa crise?

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Há algum tempo já falo por aqui sobre os múltiplos impactos da crise. As cadeias globais de valor e mercados financeiros ao redor do mundo vêm reagindo diante da crise e pressionando a economia mundial através de especulações, valorização e desvalorização das principais moedas.


A ideia desse texto é fazer uma breve linha do tempo no sentido de demonstrar as principais reações do mercado desde que a pandemia começou e demonstrar, ainda, como instabilidades políticas promovem um impacto direto nesse sentido.


Em 12/03/2020 a OMS decretou estado de pandemia devido ao novo coronavírus!


Pânico no mercado financeiro e quedas bruscas e consecutivas na Bolsa de Valores.


No Brasil, o mecanismo de paralisação da Bolsa de Valores, chamado circuit breaker (utilizado quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do dia anterior) foi usado diversas vezes entre os dias 09 e 13 de março por conta da declaração e as incertezas que ela trazia.


Além da Bolsa de Valores em si, as Companhias Aéreas, setores ligados ao turismo e hotelaria foram uma das primeiras áreas da economia a serem atingidas com enorme número de cancelamentos, redução de demandas e receita.


O Comércio Internacional e as atividades de exportação e importação também foram severamente impactadas por conta dos decretos de isolamento de vários países.


A retração de consumo se tornou uma realidade devido ao isolamento social para combate à pandemia e, principalmente em função da crise econômica reforçada por ela. Em abril, registrou-se no Brasil uma queda de 10,1% no Índice de Confiança do Consumidor.


Com a redução do consumo, o desemprego torna-se uma realidade cada vez mais presente. O Brasil fechou o primeiro trimestre de 2020 com 12,85 milhões de desempregados (o que era um problema evidente antes da pandemia).



A retração econômica das empresas também aponta um cenário perigoso em relação ao nível de endividamento que pode impactar os bancos e o sistema financeiro do país.


O número de pedidos de empréstimo aumentou em 60% por parte dos pequenos negócios, exigindo uma maior responsabilidade do Banco Central em liberar tais créditos devido ao risco de calote e dificuldade de pagamento.


Com todo esse cenário de crise nas trocas internacionais, crise na demanda e desaceleração do consumo, acompanhada de uma alta do dólar, é possível destacar um impacto direto em relação ao grande aumento no preço das matérias-primas importadas, o que impacta, diretamente, no saldo da Balança Comercial do país.


O que pode ser feito em termos macroeconômicos?


Essas são algumas das recomendações do FMI:


Mas e o Brasil, o que tem feito?


O governo brasileiro através de seu ministro da Economia, Paulo Guedes, vem apontando soluções distintas no sentido de reforçar reformas que aliviam os gastos do governo para equilibrar as contas públicas e sinalizar um esforço em melhorar o ambiente de negócios no país e retomar a confiança de investidores. Nessa linha, o Banco Central decidiu abaixar a Taxa Selic de 3,75% para 3%. A redução da Taxa Selic tende a melhorar o ambiente de negócios e atração de investimentos. Com essa taxa mais baixa, muitos investidores retiram investimentos de renda fixa tornando-os investimentos variáveis, impulsionando na abertura de novos negócios, por exemplo.


A dúvida de muitos economistas é se essa confiança realmente será retomada com um cenário internacional incerto e com um cenário atual em que o Brasil é o segundo país com maior número de mortes em função da COVID-19, tendo ultrapassado o Reino Unido no final dessa última semana.


Além de uma profunda crise sanitária e econômica, vivemos uma crise política.


Como ela impacta nosso dia a dia e o ambiente econômico?


Desde março, em que a COVID-19 tomou grande proporção no Brasil, os desencontros entre o governo federal em relação aos níveis estaduais e municipais foram grandes.

Indo na contramão de estudos e pesquisas mundiais sobre a pandemia, o governo federal fez uma série de declarações contrárias ao isolamento social, defendendo que o Brasil não poderia ficar parado e que a economia precisava continuar.


Os governos locais, no entanto, fizeram uma série de decretos fechando o comércio e reforçando a necessidade de isolamento para combate da doença.



Internacionalmente, diversos países começaram a apontar a má gestão brasileira em relação ao combate à pandemia e a própria OMS advertiu o país em relação aos riscos disso. O descrédito internacional do país somado ao cenário de ingovernabilidade entre os entes federativos reduziu, ainda mais, a confiança de investidores.



Especialistas apontam o governo Bolsonaro como uma espécie de presidencialismo de conflito: além de criar conflitos com cidades e estados brasileiros, o desentendimento entre os ministérios do governo são muitos. O primeiro exemplo emblemático disso se deu com as discordâncias do presidente em relação ao fato do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, propor soluções de enfrentamento da crise que prezavam pelo isolamento e pelas recomendações da OMS



Em 16/04/20, Mandetta foi demitido do cargo, quando ele tinha 76% de aprovação popular. Com aumento da insegurança no mercado, o dólar fechou em alta na ordem de R$ 5,23 nesse dia.


Na semana seguinte, no dia 24/04, os desentendimentos continuaram e, dessa vez, o ministério ameaçado foi o da Justiça. Sérgio Moro e Jair Bolsonaro tiveram uma série de desentendimentos atrelados a mudança do superintendente da Polícia Federal exigida pelo presidente. O conflito levou ao pedido de demissão de Sérgio Moro e a exoneração de Maurício Leite Valeixo (diretor-geral da PF).


Junto com a demissão, Moro trouxe uma série de acusações de que o presidente tentou intervir na PF, abrindo processo no STF.


Ao observar o fechamento do dólar nesse período, vemos que a alta começou no dia 17/04, em função da saída do ex-ministro da Saúde Mandetta e chegou a 5,65 no dia 24/04, dia da demissão do ex-ministro Sérgio Moro.


Aumenta o risco de impeachment e envolvimento em esquemas de corrupção.


Desapontando uma série de seus apoiadores que votaram no presidente com a promessa de uma “nova política”, Bolsonaro começa a fazer uma série de negociações e aproximações com o chamado “centrão”.


A popularidade do presidente cai, assim como a credibilidade internacional e econômica do país. Enquanto o número de mortes pela COVID-19 no país se aproximava dos 20.000, o presidente insistia nos discursos anti- científicos de que o isolamento social não era importante, relativizando vidas com declarações polêmicas em coletivas de imprensa:

Nelson Teich, o novo ministro da Saúde indicado por Bolsonaro, também passou por uma série de discordâncias em relação ao presidente no que tange os protocolos de enfrentamento à crise sanitária e pediu demissão, no dia 15/05/2020. Em plena pandemia, foram duas demissões consecutivas de ministros da Saúde, em menos de um mês.


O aumento no número de mortes constante, somado a uma queda intensa na atividade econômica e uma má gestão da crise no país deixou os investidores ainda mais apreensivos:


O dólar bateu R$ 5,84, com alta de 0,38%. Já o índice Ibovespa, que registrou 79.538,23 pontos na máxima do dia, caiu para 77.426,10 pontos, com queda de 1,19%.



E O IMPEACHMENT?



Juridicamente, especialistas apontam que existe embasamento legal para o impeachment do presidente. Atualmente, já são mais de 25 pedidos enviados.


Do ponto de vista da conjuntura política e econômica, o impeachment é visto como um desestabilizador do mercado e das relações políticas, principalmente em meio à pandemia.


Caso aprovado pela Câmara dos Deputados, a votação do processo de impeachment poderia durar até 10 meses.


Apesar do embasamento jurídico consistente, o impeachment é fruto de um processo jurídico, mas também político, uma vez que o mesmo exige consenso dentro do sistema político e votação na Câmara e no Senado.


Em um cenário como o atual, quais as reais possibilidades de um impeachment?


Segundo uma pesquisa divulgada pela InfoMoney, Bolsonaro ganhou força na sua relação com o Congresso após negociação de cargos com o “centrão”. Hoje, ele conta com o apoio de 32% dos deputados federais e 27% dos senadores (retrato do melhor cenário no último ano). 46% dos analistas políticos veem como baixa a probabilidade de impeachment do presidente até 2022.



Além do cenário de insegurança em relação à COVID-19, o Brasil fabrica uma série de outras crises que aumentam a insegurança e a dificuldade de retomada econômica. Uma delas é exatamente a crise política.


A alta do dólar e seus impactos no mercado interno:


A alta do dólar vem de um reflexo mundial, com uma série de acontecimentos ligados à COVID-19. No entanto, o desempenho da moeda brasileira, frente ao dólar é consideravelmente pior:


Em 2020, enquanto o real já caiu mais de 15% em relação ao dólar, outros países acumulam perdas menores na mesma comparação. A perda em relação à moeda dos EUA foi de 4,98% na moeda do México (peso mexicano), 9,40% da África do Sul (rand), e 12,75% da Turquia.


POR QUE ESSA DIFERENÇA?


Juros baixos com a economia fraca e o fim da atratividade brasileira (uma das principais políticas econômicas defendidas por Paulo Guedes, desde o início do governo, era a necessidade de juros baixos).

historicamente, o país era atrativo para investidores que tomavam dinheiro emprestado no exterior (com juros mais baixos) e aplicavam no Brasil, de olho na diferença entre as taxas de juros. Na nova realidade, a perspectiva é que menos dólares entrem no Brasil, o que, pela lei da oferta, valoriza o preço da moeda americana.



Tivemos a maior retirada histórica de investimento estrangeiro no Brasil, chegando a R$ 52,609 bilhões em 2020.


CENÁRIO DAS CONTAS PÚBLICAS:


↓ Déficit na conta financeira de US$ 10,8 bilhões VERSUS ↟ superávit de US$ 6 bilhões na comercial.


O CENÁRIO DAS COMMODITIES:


Queda da economia chinesa


Queda de preço de algumas commodities como petróleo e itens agrícolas



Queda na moeda brasileira


Queda na balança comercial brasileira, que é exportadora de matérias-primas.



*OBS: A China é o principal parceiro comercial do Brasil, sendo o destino de 28,1% das exportações brasileiras, com as vendas especialmente de soja, petróleo bruto, minério de ferro, carne bovina. A China é, ainda, a principal origem das importações brasileiras, principalmente no que diz respeito a compra de matérias-primas (em que 20% vêm da China).


A CRISE DO PETRÓLEO


A segunda maior economia do mundo, a China, e primeiro importador de petróleo do planeta, fechou suas fronteiras e diminuiu sua atividade econômica.



Cadeias produtivas do comércio internacional foram impactadas pela MENOR demanda do consumidor.



Queda no preço do petróleo



No dia 8 de março, a cotação da commodity chegou a cair 31% nos mercados asiáticos, o barril Brent foi negociado a US$ 36,62.


*OBS: essa foi a maior queda diária desde a Guerra do Golfo, em 1990.


As ações da Petrobrás desvalorizaram mais de 54% e a empresa já perdeu, no último mês, mais de R$ 175 bilhões em valor de mercado


A DISPUTA ENTRE EUA X CHINA


A Guerra Comercial entre os dois países começou com uma disputa de imposição de tarifas sobre a entrada dos produtos chineses nos Estados Unidos e vice-versa.



Risco de impacto no fluxo econômico global entre as duas maiores potências e redução do PIB mundial.


Cadeias de fornecimento de tecnologia ameaçadas.


Coronavírus intensifica as tensões geopolíticas entre os países que são históricas desde que a China começou a crescer muito e ameaçar a hegemonia norte-americana no mundo.


Como se sabe, o coronavírus teve sua origem na cidade de Wuhan, na China. Desde então, os EUA têm culpado a China constantemente pela disseminação do vírus.


Mercados financeiros e trocas internacionais cada vez mais inseguros e ameaçados.


O Brasil, seguindo sua política externa de alinhamento aos EUA, corroborou com o discurso de culpar a China, atritando mais uma vez nossas relações econômicas com país.


No dia 24/05/20 Trump anunciou a proibição da entrada de viajantes vindos do Brasil por causa de coronavírus. Estrangeiros que tenham passado 14 dias no Brasil não poderão entrar nos EUA.

A proibição aumenta o tensionamento diplomático entre os dois países e afasta a possibilidade de uma cooperação internacional efetiva no combate à pandemia.


Em função do combate insuficiente à pandemia, o Brasil ficou deixado de lado das reuniões da OMS de negociação e cooperação para descoberta de remédios e vacinas contra o vírus.



Estados Unidos e Brasil vêm questionando muito a legitimidade da OMS em plena pandemia. Trump segue com uma constante ameaça de retirada de recursos da organização e Bolsonaro segue afirmando que ela possui uma atuação ideológica.


OBS: O Brasil hoje é beneficiário da OMS e possui uma dívida de aproximadamente 33 milhões.


O posicionamento do Brasil deve ser pensado de maneira bastante pragmática nesse contexto, afinal, os dois países são importantes parceiros comerciais do Brasil, e potenciais parceiros em termos de cooperação internacional no combate à pandemia, no que tange o fornecimento de respiradores, máscaras e equipamentos de saúde. O estreitamento dessas parcerias são fundamentais na superação da crise.


Enquanto isso, no cenário internacional:


A China vêm mostrando uma recuperação rápida, apesar do retrocesso do primeiro trimestre.De acordo com FMI, a previsão é de que haverá uma retração de 3% da economia mundial em função da COVID-19. Os EUA terão uma contração de 5,9%, enquanto no Brasil, a estimativa é de uma retração de 5,3% no PIB.


Demais países em que espera-se uma retração no PIB:

Reino Unido: 6,5%

Rússia: 5,5%

Japão: 5,2%

Arábia Saudita: 2,3%


Cenário na América do Sul:

Equador: 6,3%

Argentina: 5,7%

Chile: 4,5%

Venezuela: 15%


O FMI aponta duas economias que poderão ter crescimento positivo em 2020 (ainda que com índices menores que nos últimos anos):


China em 1,2%

Índia em 1,9%


Retomada econômica:


As previsões do FMI apontam para uma recuperação gradual em 2021, na medida em que a pandemia for contida. Inicialmente, a estimativa é de um crescimento global de 5,8%.


Percebemos, então, que estamos vivendo tempos difíceis. Os impactos da crise são diversos. Assim, o quanto antes os governos passarem a tomar decisões mais pragmáticas, que considerem a difícil realidade (sem querer negá-la) no combate à pandemia, menores serão os danos – tanto econômicos, quanto em relação às vidas, que, pouco a pouco, se perdem a cada dia. E essas não podem ser recuperadas no ano seguinte.



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