• Laura Costa

Gestão de crise e a necessidade de planos de ação para cuidar da nossa cidade

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Um dia desses para trás estive lendo uma notícia em que chamava atenção para o que Milton Santos falava sobre a desigualdade resultante da globalização. Essa globalização, que serve para os grandes donos do capital, só afunda ainda mais quem está à margem do acesso ao capital. E é nesse mundo globalizado que surge o Coronavírus. E, junto ao Coronavírus, muitas mortes nos países que pertencem ao centro do capitalismo, por conta da grande movimentação dos mercados e pelo alto fluxo e tráfego de pessoas. Mas a chegada nos países periféricos também é inevitável e fatal. Fatal porque os grandes bolsões de comunidades pobres presentes nesses países como o Brasil, à margem do luxo que o capitalismo esbanja e que somente as classes médias e altas têm acesso, sem um sistema de saúde qualificado e sem uma condição higiênica mínima, ficam sem como se proteger do vírus. O resultado já estamos vendo: morte.


Belo Horizonte não está distante dessa realidade. É uma cidade que, nos anos 60, cresceu exponencialmente e criou uma cidade cheia de prédios e modernizada, ao mesmo tempo que aumentou a população da cidade em níveis jamais suportados, proporcionando o surgimento de vilas e favelas não planejadas, sobre leitos de córregos mal cuidados. Sim, os córregos em Belo Horizonte são muito poluídos e potencializa a vulnerabilidade dessas vilas e favelas em BH no enfrentamento do coronavírus. São comunidades como a da Dandara, que se instalou perto do córrego olhos d'água, cujas águas estão poluídas por receber esgotos em seu leito, além de conter depósitos de resíduos domésticos, que ilustram a falta de condição sanitária de certas partes de nossa cidade, e que colocam esses moradores em condições ainda mais precárias, especialmente em relação à doenças. Essa vulnerabilidade se mostra quando se constata a presença massiva do coronavírus nas redes de esgoto e ribeirões de BH.


Eu vejo o presente como o resultado da história, assim como vejo a poluição dos rios e córregos de Beagá como o resultado de um acúmulo de escolhas políticas erradas do passado. As condições de saneamento em algumas áreas são precárias por conta do tratamento que têm sido dado desde o início para os leitos da cidade, que passa pela criação excessiva de redes de esgoto que caem nos rios desde a década de 1920 e, depois, pela falta de iniciativas efetivas para resolver tal situação.


Nos anos de 1960, por exemplo, o grande desenvolvimento pelo qual a cidade começou a enfrentar, resultou em uma quantidade de obras que visavam o tamponamento de vários córregos da cidade. Neste contexto, ao invés de buscar o tratamento das águas já poluídas, tomou-se como estratégia jogar a sujeira para debaixo do tapete e fingir que não existe. Deixaram os leitos invisíveis para que ninguém se incomodasse com a grande sujeira que eles absorviam, mas o problema estava lá. Aliás, está aqui e sempre fez parte de nossa cidade. E ele não só deixa comunidades, vilas e favelas em situação de vulnerabilidade contra doenças como o Coronavírus, como inundou e inunda a nossa cidade em vários momentos de sua história. Quem lembra das enchentes deste ano e os estragos feitos pelos transbordamentos de córregos que estão debaixo das ruas de Beagá?


Em outros termos, as águas poluídas de Beagá são um problema invisível ou, melhor, invisibilizado, porque tentou-se esconder. Precisamos garantir, então, que isso seja evidenciado e debatido. Mais uma vez, a importância da atuação cidadã nesse momento pode ser essencial. Relembrar os problemas de nossa cidade para nossos governantes é algo que dá para fazer e que podemos e devemos fazer. Isso tem tudo a ver com gestão participativa nos municípios e com cuidar de Beagá.

Referências


DUARTE, Regina Horta. “Eu quero uma casa no campo”: a busca do verde em Belo Horizonte, 1966-1976. Topoi, Rio de Janeiro, v.15, n.28, p. 159-186, jan./jun., 2014.


FIRMINO, Paul Clívilan Santos. Pandemia: o que nos ensina o olhar de Milton Santos. Outras Palavras: [S.n.], 2020. Disponível em: https://outraspalavras.net/descolonizacoes/pandemia-o-que-nos-ensina-o-olhar-de-milton-santos/ Acesso em: 05 jun, 2020.


SALES; SALES, 2019. Realidades invisíveis: uma análise da situação sanitária do município de Belo Horizonte (MG). Anais XVIII ENANPUR, 2019. Disponível em: http://anpur.org.br/xviiienanpur/anais-sts/ Acesso em: 05 jun, 2020.


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