• Laura Costa

“Não basta não ser racista, devemos ser antiracistas”

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Mais do que nunca, essa frase da pensadora e filósofa Angela Davis ecoa em meus ouvidos. Espero que não só nos meus. E pela amplitude do tema, acredito que muitas pessoas têm ouvido, de fato. Semana passada um novo-velho tema foi reacendido nos Estados Unidos: truculência policial contra pessoas negras. Violência, aliás, que fez mais uma vítima, dessa vez George Floyd.


Sempre que vemos esses casos acontecerem eu fico incomodada, me dá um nó no estômago pensar que poderiam ser amigos meus a estarem nessa situação, sofrendo uma violência policial gratuita (sim, muitas vezes sem fundamento). Não conhecia George Floyd, não conhecia João Pedro, Ágatha e tantos outros nomes que, quando colocamos juntos, vemos que são numerosas as vítimas, em todos os cantos do mundo. Mas penso que tinha gente que os conhecia e que amarga a dor de perder essas pessoas queridas.


Eu penso que nós, brancos, gozamos de diversos privilégios cotidianos e temos que refletir sobre o nosso papel na luta antiracista e, como diz minha amiga e que escreve esse texto junto comigo, a Laís, não podemos nos esconder por trás da máxima “não tenho lugar de fala”. E, de fato, nunca vou sentir na pele e na mente as influências que o racismo tem na vida de uma pessoa preta. Nunca vou ser preterida por conta da minha cor. Provavelmente, nunca vou sofrer um tipo de violência policial que atente contra minha branquitude. Mas não posso me ausentar de posicionamento. Não posso me calar na mesa enquanto são feitas piadinhas racistas, não posso ouvir quieta pessoas contrárias aos protestos por JUSTIÇA porque parte da mídia cria uma imagem contrária, reforçando a ideia de que algumas lojas estão sendo destruídas por parte dos manifestantes e, por isso, deslegitimando toda uma mobilização (o que é baixo e maldoso, aliás). Privilégio também é compreender que as dificuldades que tive não tem a ver com a cor da minha pele.


Estamos falando de vidas. Aliás, estamos falando de mortes, de injustiça e de todo um sistema de segregação de pessoas negras que ainda existe. E eu falei disso quando falei sobre necropolítica. E eu estudo isso quando estudo colonialidade e pós-colonialidade. Eu não faço ideia do que é sofrer com o racismo, mas eu sei que tem pessoas que sofrem com isso, próximas a mim aliás, e eu não vou me omitir. Me posicionar como antiracista é minha obrigação. E deveria ser de todos que se comprometem com e respeitam a dignidade humana.


Com relação aos protestos, eles estão ficando e vão ficar ainda maiores. Vejo 2020 como o ano do basta em muitos sentidos e parece que esse ano só acaba quando com ele acabarem uma série de outros fatores que corroboram para que injustiças aconteçam ao redor do mundo. Também, o Coronavírus, fatalmente, traz consigo mudanças que acredito que serão duradouras em nossa sociedade.


Ainda em Angela Davis, ela tem uma outra frase que gosto muito que é “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. E se tem uma coisa que eu vi, com todas essas manifestações acontecendo, foram mulheres negras se movimentando, mobilizando, articulando e lutando por seus direitos. Mais do que falar conte comigo, eu preciso me comprometer com ações antiracistas. Eu preciso me comprometer a estudar sobre raça, a aprender sobre raça, a ouvir e entender sobre racismo. A me calar se e quando uma pessoa negra disser que eu estou falando algo racista. Esse é o papel de uma pessoa que se compromete a ser antiracista. É lutar contra esse projeto de governo genocida, que mata um negro a cada 23 minutos. É ultrapassar barreiras fronteiriças e entender como eu posso contribuir, dentro das minhas capacidades e habilidades e até mesmo local de fala, para transmitir o que está sendo veiculado na mídia estadunidense e como transpor isso pro nosso país, para esses movimentos que estão se intensificando por aqui também.


Por fim, trago aqui um assunto que foi discutido no CONRI, na última semana, onde eu e Laís apresentamos um artigo em que colocamos a inclusão das mulheres (focando quase que exclusivamente em gênero) nas empresas como prerrogativas para bons resultados. Ao final, levantei a discussão com um outro seminarista, que apresentou um artigo sobre “Violação dos direitos do negro no Brasil”, sobre qual dilema viria primeiro “gênero ou raça?”’.


É um tópico sensível, mas que hoje me faz avaliar a forma como eu penso e o que eu aprendi e aprendo com movimentos negros. O fato aqui é que vidas negras importam. E essa semana vi um cartaz de protesto que dizia “nenhuma vida importa, até que vidas negras importem” (All lives can’t matter until black lives matter) e eu senti o peso disso. A todos os meus amigos pretos e a todos os pretos que eu nem conheço: contem comigo para lutar ao lado de vocês. Nenhuma vida importa, enquanto não houver justiça para todos. Enquanto não houver equidade e direitos civis assegurados, não estamos em um Estado Democrático de Direito. A democracia é para todos ou não é para ninguém.


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