• Laura Costa

O Big Brother ministerial e o sucateamento da educação

Atualizado: 20 de Jul de 2020


Fonte: Veja (Foto: Andre Penner/AP)


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Você tem a impressão que a sociedade todo dia é violentada ou é obrigada a ouvir discursos, no mínimo, ameaçadores? Mais do que isso, você tem a impressão que a nossa democracia tem se desmontado um pouco todo dia? Eu vejo isso, de diversas formas, em diversas frentes. Há alguns dias atrás foi nomeado o novo ministro da educação. Milton Ribeiro, de 62 anos, é Teólogo e, aparentemente, é advogado e possui um doutorado em Educação. Mas, o que preocupa são suas declarações de antes de ser nomeado como Ministro da Educação.


Existem vídeos circulando pela internet que mostram o então novo ministro defendendo, abertamente, o castigo físico como instrumento educacional para crianças e adolescentes. Além disso adotou um discurso totalmente conservador quando defendeu o domínio do homem sobre o lar, assim como indicou uma certa tendência a coibir e a deslegitimar a importância da educação sexual nas escolas e da laicidade do Estado.


Nada que um ministro de Bolsonaro não falaria, não é mesmo? Mas, não podemos nos acostumar com esse cenário. É necessário denunciar e denunciar novamente, sempre. Esse tipo de discurso é violento e ameaça a dignidade e a própria vida de uma série de pessoas e grupos.


O desprezo com a pasta da educação é uma realidade no governo Bolsonaro. E falando em educação, de acesso e igualdade de oportunidades, eu sempre gosto de lembrar sobre a importância do FUNDEB, tão sucateado pelo governo: O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação –FUNDEB é um fundo especial, de natureza contábil e de âmbito estadual. O fundo garante a aplicação de um valor de investimento mínimo padrão em cada aluno nos estados brasileiros.


De maneira simples, o FUNDEB garante um mínimo de investimento sem ter que depender da boa vontade de cada prefeitura, o que é bem importante levando em consideração que a educação básica é responsabilidade dos municípios, por exemplo. Nesta imagem a seguir é possível visualizar, de forma clara, a competência de cada ente federativo em relação à educação:

Fonte: INESC


E falando em FUNDEB, como funciona a distribuição desses recursos?

Fonte: INESC


A cada dia lemos ou escutamos um novo absurdo de algum ministro do desgoverno. Existem pessoas que sempre estão aí para minimizar esse tipo de coisa. Falam que ele falou da boca para fora, fala que esse tipo de denúncia é exagerada e trata esse tipo de fala como algo isolado. Como que isso pode ser algo isolado se o mesmo discurso é repetido insistentemente entre quem entra e sai desse governo?


Por isso, é necessário repetir: esse discurso violenta pessoas e as ameaçam. E, infelizmente, no Brasil não é só o discurso que violenta. Esse discurso se vê na prática. Quem não viu a notícia dessa semana, em que o policial pisou no pescoço (qualquer semelhança com o caso do George Floyd não é mera coincidência) de uma mulher negra e a violentou explicitamente?


Pois é, aparentemente o discurso por vezes vira prática, e ele mata. Um dia alguém discursa a favor da violência, seja contra negros, LGBT's, mulheres, crianças. No outro, alguém, de fato, violenta e ameaça vidas. Coincidência? Tenho certeza que não.


Para além das minhas críticas ao novo ministro e o quanto ele colabora com a narrativa olavista do governo, vamos pensar um pouco no Big Brother dos ministérios de Bolsonaro?

Desde que Bolsonaro assumiu a presidência, em janeiro de 2019, já houve 13 mudanças em seus ministérios (sendo 11 delas, demissões). Nesse troca troca, já foram renovadas as pastas da Secretaria Geral, Casa Civil, Secretaria de Governo, Educação, Saúde, Cidadania, Desenvolvimento Regional, Justiça.


Esse Big Brother, em que praticamente a cada dois meses um é eliminado do reality show da política brasileira, demonstra um desalinhamento do presidente e sua equipe (em que o eliminado é quem discorda do presidente no jogo de submissão) e o despreparo de alguns ao assumir os ministérios.


E, com isso, quero chamar atenção para um ponto aqui: das 13 mudanças, nenhum ministro foi substituído por alguma mulher. O mesmo padrão do homem branco, hétero, pertencente à elite brasileira continua marcando a composição do governo. E fora que a única vez que um negro foi escolhido (caso Decotelli), o mesmo saiu antes mesmo de assumir o cargo por mentiras no currículo e plágio em trabalhos (o que não foi bem novidade na equipe ministerial).


Com isso eu te pergunto, você se vê representado por essa equipe ministerial que além de não ser diversa, é um retrato claro de instabilidade institucional pro país?


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