• Laura Costa

O Estado tem poder de definir quem vive ou morre?

Atualizado: 7 de Jul de 2020


Autoria da imagem: Junião


Para ouvir o post, clique aqui.


Sigo na tentativa de sentar pra escrever algo e não falar sobre Coronavírus, ou não falar sobre política, ou não falar sobre o Bolsonaro. Mas todos esses temas parecem me atrair (ou me perseguir, rs) de uma forma absurda e, na atual conjuntura, acho que não dá pra deixar de falar de nenhuma dessas coisas. Eu até queria, às vezes, fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo. Mas está acontecendo, e o que fechar os olhos ou me esquivar dessas coisas diriam sobre mim? Eu não sou assim, não consigo olhar pro outro lado… E essa semana aconteceram uma sequência de coisas que me fizeram refletir e pensar “eu tenho que escrever sobre isso”. Aliás, mais do que escrever sobre, eu preciso aprender mais sobre. Então, nesse post, eu vou falar de duas coisas e essas duas coisas estão interligadas com uma temática chamada “Necropolítica”. Vamos lá… Talvez alguns de vocês já tenham ouvido falar sobre esse conceito. Eu confesso que cheguei até ele por conta de uns amigos, que me indicaram a leitura. E lendo, percebi que faz muito sentido e tem tudo a ver com o que estamos vivendo hoje em dia. Achille Mbembe é um escritor camaronês (que aproveito para indicar e dizer: leiam pensadores pós coloniais e decoloniais!) que cunha o termo “necropolítica”, significando política da morte. Mbembe critica principalmente o neoliberalismo e o apresenta como uma face devastadora do capitalismo, onde o Estado decide quem faz viver e quem deixar morrer - ou seja, quem deixar à sua própria sorte. Em linhas gerais ele trata principalmente disso. E quem o Estado escolheria para morrer? Bom, essencialmente pessoas negras, LGBTQ+, indígenas, mulheres, refugiados, imigrantes, deficientes, favelados… todas essas pessoas seriam descartáveis e, portanto, poderiam ser deixadas para morrer. Diante disso, não podemos esquecer que o Estado também tem uma cara, um governo que é composto por cargos, cujo acesso é difícil para estes grupos marginalizados. Por isso, a necropolítica é sempre reforçada por alguém, contra alguém. No entanto, vejo que o recorte dessa leitura tem uma origem anterior e existe desde discussão sobre biopoder sugerida por Foucault, quando ele discute sobre o poder do Estado de decidir quem vive ou morre. Achille Mbembe traz inúmeras contribuições para alocar esse debate nos tempos atuais mas, o conceito de necropolítica em si, no meu ponto de vista, vem antes da noção do neoliberalismo (e quem sabe antes mesmo da noção de Estado Moderno). Mbembe é uma leitura pesada porque é uma leitura da sociedade atual, especialmente na realidade brasileira. A cada 23 minutos morre um negro no Brasil (NAÇÕES UNIDAS, 2017). E não sou quem estou falando. É a ONU, é a Anistia Internacional. E morre por negligência do Estado, morre por conta da sua subalternidade, por não ter sua voz ouvida. As pessoas postas como “descartáveis” por Mbembe são as pessoas invisibilizadas ou tornadas invisíveis e que são exterminadas aos poucos em uma política quase higienista ou de aniquilação. E aqui Mbembe está falando de raça. E por que que eu estou falando disso? Porque essa semana, um infectologista francês sugeriu que testes de vacina contra o Covid-19 fossem feitos primeiramente em países na África e, caso essa experiência desse certo, aí sim poderiam levar as vacinas para Europa e os “países de primeiro mundo”. Vocês não fazem ideia da indignação que isso me fez sentir. É evidente que esse infectologista não se importa em “testar” remédios em vidas que são descartáveis para ele, ou seja, corpos negros. E o que me deixa mais indignada é que eu tenho certeza absoluta de que ele não é o único a pensar assim. Ele só foi o primeiro a falar. Isso me fez pensar: dá pra falar em necropolítica a nível global? Dá pra pensar em políticas de extermínio a nível global? Se dá pra falar disso, eu acredito que é o que está acontecendo… O que me leva ao segundo assunto desse post: li que em alguns países da Europa, onde o sistema de saúde está colapsando ou já colapsou, os médicos estão tendo que escolher (!!!!) entre quem vive e quem morre. Basicamente, pessoas mais velhas estão sendo deixadas para morrer e pessoas mais novas, ou com mais chances de recuperação, estão sendo escolhidas para ser tratadas. Isso acabou com meu dia. Chegamos no ápice dos dilemas utilitários (aqueles que o professor de filosofia sempre sugere pra gente pensar e costumamos ficar atônitos, sem reação). Bom, eu espero que quando esse vírus chegar com tudo no Brasil - sou otimista, mas estou sendo realista com base nas projeções de cientistas e pessoas capacitadas ao redor do Brasil e do mundo - a gente não tenha que fazer essa escolha entre quem vive e quem morre. Porque, no fim das contas, a gente já sabe a resposta… Se puder, por favor, #fiqueemcasa. REFERÊNCIAS Mbembe, Achille. Necropolítica. São Paulo: N-1 edições, 2018, 80p. NAÇÕES UNIDAS. Racismo: a cada 23 minutos um jovem negro é assasinado no Brasil. ONU Brasil, 2017. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/racismo-a-cada-23-minutos-um-jovem-negro-e-assassinado-no-brasil/>. Acesso em: 04 abril 2020. PROPOSTA de testes na África revolta Eto’o e Drogba: “Não somos cobaias”. Veja, 2020. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/placar/proposta-de-testes-na-africa-revolta-etoo-e-drogba-nao-somos-cobaias/>. Acesso em: 03 abril 2020.


65 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo