• Laura Costa

Por que levar em conta as Organizações Internacionais? A legitimidade da OMS em contexto de crise.

Atualizado: 7 de Jul de 2020



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Já declarei por aqui no blog o amor que eu desenvolvi pelas Relações Internacionais, amor esse que inclusive fez com que eu optasse por me especializar nesta área de conhecimento. Com isso, senti necessidade de falar sobre como as relações internacionais são importantes em tempos de crise. Fica cada vez mais evidente a relevância das interações globais em momentos como os que estamos vivendo, e não estou falando aqui simplesmente do fechamento das fronteiras para impedir o aumento da contaminação. Neste sentido eu vou além e me refiro à cooperação na produção de estratégias, compartilhamento de informações a nível global, diretrizes para diminuição dos danos e toda a construção de um imaginário para a forma como enxergamos as crises.


Eu tentei não falar do COVID-19 mais uma vez por aqui, mas a discussão sobre a importância das organizações internacionais é um tema que acho mega necessário, e a incidência da pandemia do coronavírus colocou em evidência uma organização em especial, a Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS entrou em vigor em 1948, e hoje já podemos dizer que ela é a principal responsável pela cooperação internacional na área da saúde. Logo em sua constituição, temos um de seus princípios que aponta que “a saúde de todos os povos é uma condição fundamental para se alcançar a paz e a segurança e depende da mais estreita cooperação dos indivíduos e dos Estados”.


Vocês devem estar se perguntando: “beleza, Laura, já ouvi falar bastante da OMS, mas qual a importância ou para que serve uma organização ou instituição internacional?”. Essa é uma ótima pergunta, e a resposta não é tão simples. Teoricamente falando, esses atores internacionais são super importantes na conformação de determinados sistemas de governança, arranjos ou regimes. Todos esses termos são um pouco complexos (e eles podem ser assunto para um próximo post 😉), mas e na prática, o que isso quer dizer? Quer dizer que a OMS lidera a macrocoordenação de esforços internacionais, passando por âmbitos diplomáticos, paradiplomáticos (relações internacionais guiadas por governos subnacionais, como cidades) e pela comunidade científica internacional, engendrando assim um sistema de troca de informações e diretrizes que têm como alvo todo o globo.


Há uma desconfiança de que cada Estado sempre vá defender seu lado de forma egoísta, e é justamente aí que temos que uma das grandes funções das OIs: é aumentar o grau de confiança existente entre os atores do sistema internacional. Podemos ver um exemplo disso nesta crise que vivemos, a OMS foi responsável por possibilitar que países com regimes políticos divergentes, colaborassem. Com a ação da organização, a Comissão Nacional de Saúde da China cedeu informações sobre os efeitos da pandemia em seu território. No caso do Irã, em que as informações também são complicadas de se obter, a OMS conseguiu enviar uma missão científica para atuar junto ao governo deste país.


A mensagem que a OMS passa é clara: devemos buscar o fortalecimento de medidas que promovam o distanciamento social e evitar aglomerações e atividades que possam contribuir com o contágio. Sendo uma autoridade internacional no quesito saúde, tendo acesso a pesquisas e informações privilegiadas, parece lógico levar a OMS em consideração na hora de tomar as decisões internas dos países, correto? Pois é, parece que para alguns gestores e líderes não é tão lógico assim.


Na última semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que esperava pôr fim às medidas de isolamento no país - sete dias depois, os Estados Unidos ultrapassou o número de mortes da China, país em que o vírus surgiu. No Brasil, o presidente Bolsonaro, além de minimizar os efeitos do coronavírus, também desconsiderou a OMS e defendeu o isolamento vertical, aquele em que apenas o grupo de risco - idosos e portadores de doenças crônicas - deveria ser isolado. O presidente Trump voltou atrás em sua decisão, já Bolsonaro, nem tanto. Ele mudou o tom de seu último anúncio na noite de ontem (31/03), e se antes era uma “gripezinha”, agora o vírus já pode ser visto como uma “realidade”, até mesmo “o maior desafio da nossa geração”, mas ainda não foi destacado por ele a importância do isolamento social. Percebe-se que há o aproveitamento de alguns discursos da OMS, enquanto outros são distorcidos ou apagados.


Diferente das ações que destaquei aqui, a OMS não toma decisões pautadas em “achismos”. na verdade, suas decisões são frutos de pesquisa e de todo um histórico de ações voltadas para a área da saúde. Para se ter uma ideia, a trajetória da OMS passa por seis surtos - Sars, Mers, Pólio, Zika, H1N1 e Ébola – casos estes que já foram considerados emergência internacional. As organizações internacionais têm e terão papel crucial na mitigação dos danos causados pelo COVID-19.


Destaca-se por fim, que, além de contribuir com o combate ao vírus, as organizações, por meio da disseminação de informações confiáveis, também atuam diretamente sobre o que está sendo chamado de “a epidemia das fake news”, um mal que tem atingido em cheio o Brasil.


LIMA, Bruna. Diretor da OMS reforça políticas públicas após declaração de Bolsonaro. Correio Braziliense, 2020. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/03/31/interna_politica,841508/diretor-da-oms-reforca-politicas-publicas-apos-declaracao-de-bolsonaro.shtml. Acesso em 01 de Abril de 2020.


Pronunciamento Oficial do Presidente da República, Jair Bolsonaro. [Brasília]: Poder Executivo, 30 mar., 2020. 1 vídeo (7 min, 29 seg). Publicado por Planalto. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=16RR2rG_AKA. Acesso em 01 de Abril de 2020.


World Health Organization. About WHO: Better health for everyone, everywhere. 200-?. Disponível em: < https://www.who.int/about> Acesso em: 01 de Abril de 2020.


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