• Laura Costa

Qual educação temos X qual educação queremos: uma análise do Ideb em BH

Atualizado: 27 de Ago de 2020


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A educação é uma das grandes bandeiras da minha pré-campanha à vereadora. Não é incomum ouvirmos boa parte da população, até mesmo alguns políticos, falando sobre a importância da educação. Inclusive, a Constituição de 1988 estabelece entre os artigos 205 e 214 uma série de considerações que destacam a relevância e a necessidade da educação frente à construção dos nossos municípios, estados e do Brasil como um todo.


A demanda por uma melhor educação presente nas falas populares e nas propostas políticas é excelente, mas temos aí um grande gargalo, uma vez que na prática a educação segue sendo sucateada. Apesar de muito comentada, será que a educação pública de BH recebe a valorização que ela merece? Será que ela consegue garantir um ambiente de aprendizado para o aluno?


Sempre acompanho o Ideb, e essa semana resolvi falar sobre ele por aqui. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, mais conhecido por sua sigla “Ideb”, é um indicador da qualidade da educação que se aplica aos ensinos fundamental e médio, abrangendo as redes pública e privada. Seu cálculo é feito de dois em dois anos, de acordo com os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e com as taxas de aprovação das escolas e redes de ensino.


O Ideb inclui em seu cálculo tanto o resultado de provas - a Avaliação Nacional de Rendimento Escolar e a Avaliação Nacional da Educação Básica - quanto a taxa de aprovação dos alunos. Essa combinação é pensada para evitar que as escolas excluam determinados alunos para garantir boas notas nas provas. Simplificando, para se sair bem no Ideb, é preciso combinar uma boa taxa de rendimento - ou aprovação de alunos - com notas boas nas provas, e tudo isso é medido numa escala de 0 a 10.


O Ideb é dividido por etapas de ensino: temos os anos iniciais do ensino fundamental (1° ao 5° ano), os anos finais do ensino fundamental (6° ao 9° ano), e por fim, o ensino médio (1º ao 3º ano). A meta proposta pelo Ministério da Educação (MEC) é que o Brasil atinja 6 nessa escala de 0 a 10. Esse valor proposto é pautado no nível de desempenho de estudantes brasileiros com melhores pontuações no Pisa (sigla em inglês do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). O Pisa é um exame desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)*. Infelizmente, no ranking do Pisa, o Brasil sempre costuma ficar entre os últimos colocados.


A partir dessa análise, a nota 6 é alta, porque pega como base países com sistemas educacionais que recebem mais investimentos e são mais consolidados que o do Brasil. A meta desenvolvida pelo MEC ainda estabelece um prazo, temos até 2021 para alcançar a nota 6.


Analisando os dados fornecidos pelo Ideb, podemos entender um pouco mais sobre o quão distante Belo Horizonte está de atingir a meta. Começando com o lado bom, estamos próximos de alcançar a nota exigida no que tange aos anos iniciais, atualmente estamos em 5,90. Destrinchando essa informação um pouco mais, podemos analisar qual a porcentagem de escolas atingiram a meta:

Fonte: Ideb, 2017; gráfico de autoria própria.


Segundo os dados de 2017, 60,7% das escolas municipais atingiram a média, ou seja, alcançaram a nota 6. O resultado indica que estamos no caminho certo, pois, além de estar próximo de alcançar o que se foi proposto, o crescimento a cada nova análise tem sido satisfatória. Esse retorno faz com que a maioria das escolas tenha que apenas manter o nível de crescimento, como no gráfico abaixo:

Fonte: Ideb, 2017; gráfico de autoria própria.


Um olhar estrito para a média e para os números positivos esconde a variabilidade: temos escolas que estão abaixo do esperado. Assim, devemos voltar nossa atenção não só sobre a necessidade de alcançar a meta de uma forma geral, mas principalmente sobre aquelas que estão ficando para trás. Essas escolas são de regiões específicas? Elas possuem o mesmo incentivo? Questões como essas devem ser destacadas em meio a um quadro de análise, pois observar pura e simplesmente através da ótica da meta pode nos dar a impressão de uma suposta qualidade que não representa a realidade de todas as escolas.


Mas e quando falamos dos anos finais? Como eu disse, a notícia boa veio primeiro. No quadro de análise percebemos que existe um abismo enorme entre a média do Ideb e a meta. A nota municipal nesta etapa do ensino é 3,83. O gráfico abaixo nos ajuda a visualizar a porcentagem de escolas que atingiram a meta:

Fonte: Ideb, 2017; gráfico de autoria própria.


Apenas ¼ das escolas atingiram a meta proposta pelo MEC. Para pensarmos o quão alarmante é isso, temos apenas até o próximo ano, 2021, para fazer com que essa média aumente, e muito, em 75% das escolas. A média citada já indica que temos aqui um alto número de escolas em estado de alerta, e isso é confirmado no gráfico abaixo:

Fonte: Ideb, 2017; gráfico de autoria própria.


Assim, em Belo Horizonte temos o preocupante número de 36 escolas em estado de alerta e 43 em estado de atenção. O crescimento da média para os anos finais ao longo dos resultados do Ideb também existe, porém de forma lenta. Com essas informações, chegamos à pergunta: o que provoca a grande lacuna entre anos finais e iniciais? Alguns especialistas afirmam que a problemática está em como reorganizar o foco na leitura e em resolução de problemas. Bom, se o problema está dado e percebemos a presença de um obstáculo, devemos procurar saber quais municípios conseguiram superá-lo.


Surpreendendo alguns desavisados (que ainda costumam enxergar o nordeste através de um estereótipo e diminuir essa região), o Ceará tem 6 das 10 escolas que conseguiram a maior nota no Ideb. Existem duas escolas do interior do Ceará que conseguiram resultados particularmente altos nos anos finais do ensino fundamental, e o que os pesquisadores encontraram nessas escolas foram políticas de valorização da leitura. Essa diferença, que parece simples, transformou todos os resultados. Nesse caso os alunos não estavam se preparando apenas para a prova do Ideb, esse não era o pretexto, eles estavam se preparando para ler de forma funcional e crítica.


Adicionando o exemplo de um vizinho do Brasil, em 1994 a Bolívia inaugurou o "Programa de Reforma Educativa". Entre outras características, ele estabelecia o caráter democrático da educação, com uma participação ativa da sociedade, que ajudou com o planejamento, organização, execução e avaliação do processo. Ainda, existiu um enfoque cultural, gerando uma modalidade bilíngue na educação, contemplando a diversidade étnica do país. A Bolívia conseguiu erradicar totalmente o analfabetismo do país em 2008.

Não precisamos ir longe para encontrar caminhos para revolucionar nossa educação. A OCDE pode até ditar um padrão pra gente, mas quem nos mostra como alcançá-lo, tá bem aqui do nosso lado. Sabemos pra onde seguir, e temos que seguir!


A primeira mudança deve vir na leitura dos resultados do Ideb. Primeiro, mesmo que ele seja vendido como um índice que diz tudo sobre a escola, essa não é a verdade, uma escola não se resume a uma nota.


Segundo, não podemos ver essas notas como uma forma de punir ou desmoralizar a escola, muito pelo contrário, o índice deveria trazer oportunidade de aprimoramento para quem precisa.


Terceiro, a divulgação das notas é super benéfica pois contribui com a transparência, mas o que surge a partir daí não deveria ser um espírito de rivalidade, na verdade, o sistema deveria se preocupar com como cada escola pode aprender com as outras. Todas as escolas têm pontos fortes e fracos, todas tem muito a ensinar e a aprender.


Com esse texto, introduzo o assunto sobre o Ideb aqui no blog, mas novas discussões devem vir por aí: como será que a pandemia e o isolamento vão impactar a meta do Ideb? Como podemos fazer com que Beagá construa um ambiente de aprendizado que valorize a leitura? Esses temas são amplos e eles irão sendo destrinchados aos poucos, fique atento ao blog! 😉


*A OCDE é uma organização econômica intergovernamental que conta com a participação de países como os Estados Unidos, França e Alemanha. O Brasil não faz parte da organização, sendo o México e o Chile os únicos membros latino-americanos no momento.


Referências


NOGUEIRA, Fernando. Nova escola. 2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12525/ideb-nao-e-unico-indicador-de-qualidade-da-escola. Acesso em 20 de agosto de 2020.

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